A imagem da estrada solitária e atravessada pela luz amarela dos faróis do carro marca o começo do filme Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. A visão contínua do asfalto é acompanhada pelo som do rádio e da voz interna do personagem, que, nos seus pensamentos, reclama da monotonia de uma longa viagem a trabalho.
Assim, como em boa parte dos filmes do gênero conhecido como Road Movies, ou Filmes de Estrada, a viagem do geólogo José Renato para o interior do nordeste torna-se o fio condutor da história. Porém, esta ganha maior complexidade à medida que o geólogo, à principio designado para fazer um relatório para embasar a construção de um canal na região, vivencia a realidade local levando em conta a sua situação no presente, as memórias do passado, e os seus questionamentos quanto ao futuro.
Diante das paisagens áridas, isoladas, pouco habitadas do sertão nordestino, José Renato não esconde a sensação de tédio e solidão que esse contato o provoca. Todo esse desconforto adquire maior sentido quando ele revela sentir saudade da ex-mulher, e lamenta a dura constatação de estar só, após recente separação. É a solidão contundente que o aperta, o faz confrontar-se com os seus sentimenos, e a sua passagem pelo interior do nordeste também acentua esse processo, pois, como ele, aqueles lugares e as pessoas que encontra também parecem estar em plena situação de abandono.
Dessa forma, José Renato vive a viagem como uma experiência intensa e desconfortável em muitos momentos. Enquanto segue com a sua pesquisa de campo para avaliar uma possível construção futura, a partir da alteração do curso do principal rio da região, ele nota como essa mudança pode impactar significativamente a vida dos habitantes, trazendo benefícios e prejuízos para a população. Percebe-se como o personagem começa a se envolver com as consequências da criação do canal, que poderia varrer do mapa moradias inteiras e com elas as histórias particulares da cada um.
Suas observações são cuidadosamente registradas em fotografias e vídeos, o que confere um forte caráter documental que impregna o filme. E as imagens, às vezes intencionalmente amadoras, são a prova do seu olhar atento e subjetivo, que se revela com sutil poesia.
A trilha sonora também merece atenção. Impressionante como os diretores conseguem utilizar as famosas canções dor-de-cotovelo, entre elas a conhecida “Morango do Nordeste”, sem soar piegas. Assim como em O céu de Suely (2006), as músicas em Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) enfatizam as situações vividas pelo personagem principal. Sendo, uma que se destaca, neste último, a bela canção “Último desejo”, composta por Noel Rosa, cuja letra é minuciosamente lembrada pelo pesquisador enquanto segue estrada adentro.
(fotos: divulgação)

fui ao cinema e assisti esse filme quase que por engano… os 10 primeiros minutos foram desconcertantes prá mim. Mas depois que você se familiariza e entra no universo da vozinha nordestina falada no gravador, viajo pq preciso vira um filmão, né? também curti… gostei do uso da técnica com propósito, sem ser aquela doidera pura que a galera da vídeo-arte costuma querer mandar guela abaixo da gente…
[só que se a gente tivesse assistido junto ia cantar um moranguinho do nordeste junto, num ia? ]
hahaha eu acho que íamos sim, Lara! Dueto forte principalmente no refrão! rs Mas, então, o filme é legal, né? E, como vc disse, é experimental, mas não é chato. Acho tbm que eles acertaram a mão na receita e o resultado é bem bacana.